O EFEITO DE “NORMALIZAÇÃO” DO FUTEBOL FEMININO NO BRASIL

Simoni Lahud

Programa de Pós-Graduação em Antropologia/UFF, Brasil. Mail: simonilahud@uol.com.br

**

A VIII Copa do Mundo Feminina FIFA 2019 não trouxe resultados surpreendentes nas semifinais: 3 seleções europeias (Alemanha, Holanda e Suécia) e a seleção norte americana. As seleções alemã e norte americana alternam-se no ranking FIFA em primeiro e segundo lugares, considerando, além das Copas do Mundo e dos Jogos Olímpicos, os inúmeros outros torneios autorizados pela federação que monopoliza o futebol no mundo. Outras seleções, como a da Inglaterra, da Noruega e do Japão poderiam ter obtido boas colocações. Nenhuma da América do Sul que, no futebol masculino, obteve nove das vinte copas já realizadas, sendo claramente a região hegemônica no século XX. O futebol feminino de alto rendimento, portanto, está sendo claramente dominado pelo hemisfério norte ou, se quisermos outro recorte, por países colocados no centro monopolizador do capitalismo moderno.

Muitas vezes, o acúmulo de vitórias em campeonatos e torneios de alto rendimento não tem relação direta com a popularidade e difusão de um esporte numa determinada região. Tomando um exemplo, entre outros, do caso brasileiro, já tivemos, por alguns anos, o tenista número um do mundo –Gustavo Kuerten– sem que tivéssemos antes ou depois qualquer expansão/popularização do tênis em terras brasileiras. Entretanto, na maioria dos casos, a expansão/difusão de um esporte antecede e sustenta as conquistas do alto rendimento. Não que estas conquistas sejam essenciais mas, com certeza, têm um efeito multiplicador nas práticas ligadas a um determinado esporte. Para que isto ocorra, é preciso, primeiro, que ele já tenha sido apropriado por, pelo menos, uma parte significativa da população.

Nesse sentido, os efeitos deletérios da proibição do futebol feminino no Brasil, por cerca de 40 anos, a partir de 1941, são visíveis até da minha varanda. Resido ao lado de uma das maiores escolas públicas de ensino médio de Niterói e posso ver uma das quadras perfeitamente. Vejo ali muitos jogos de handebol –o esporte escolar mais praticado por aqui– tanto com times mistos, meninos e meninas, quanto times masculinos ou femininos. Quando, contudo, o jogo é o futebol, nunca vi times mistos ou femininos. Em recente debate que acompanhei, promovido pelo Museu do Futebol de São Paulo, uma das participantes chamou a atenção para a dificuldade que as meninas encontram de ocupar quadras ou campos de futebol, considerados como espaços claramente masculinos. Mesmo dentro das chamadas “escolinhas de futebol” ou nos projetos sociais esportivos, que estudo há anos junto com orientandos, a aceitação das meninas é sempre relativa! Nos times mistos, são, muitas vezes, ignoradas pelos meninos que jogam entre si. Por isso, muitos professores de educação física e alguns monitores de “escolinhas” criaram uma nova regra de inclusividade: o gol só é válido se a bola passar, em algum momento, pelos pés de alguma menina.

Da proibição à obrigação

Na mesma direção vai a determinação da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), seguindo orientação da FIFA, de que todos os clubes que disputam a série A do Campeonato Brasileiro, que dá acesso à Libertadores, tenham, necessariamente, que estruturar um time feminino profissional já em 2019, sob pena, inclusive, de serem impedidos de participar da Copa Libertadores (Conmebol) no ano seguinte. Isto quer dizer que as portas estão abertas finalmente para o futebol feminino no Brasil? Claro que não. No debate a que me referi na nota 1, com profissionais atuando no meio futebolístico, fica muito claro que, muitas vezes, dentro da própria CBF, trata-se de uma inclusão “de fachada”, sem um verdadeiro apoio e estruturação adequada.

Portanto, no Brasil, pelo menos por enquanto, o futebol tout court é o masculino. Apesar da queda de sua representatividade em termos identitários nacionais, como venho argumentando recentemente, o futebol masculino é o futebol no Brasil. Já se passaram 40 anos do levantamento da proibição ao futebol praticado por mulheres. Tivemos, nesse período, muitas jogadoras inseridas como profissionais nos maiores times do mundo. Tivemos a Marta, seis vezes escolhida como melhor do mundo. Nossas seleções, praticamente sem apoio, participaram das 8 copas do mundo realizadas. Mas tudo isso pouco abalou a hegemonia do futebol masculino em nossas representações.

Vale recorrer à velha comparação Brasil/Estados Unidos, feita por um contraste óbvio, comparação muito cara aos estudos socioculturais brasileiros. Mas, neste caso, ela lança não apenas luz mas muitos holofotes sobre as diferenças na compreensão do caso brasileiro e norte americano. Como dizia Pierre Bourdieu (1990), que não entendia nada de esportes mas sabia tudo de metodologia, “não se pode analisar um esporte particular independentemente do conjunto das práticas esportivas”. Nesse sentido, o caso americano é um caso exemplar. Devido às condições climáticas, os esportes nos EEUU têm temporadas indoor e outdoor. Não havia um equivalente feminino ao football (americano, outdoor). Resumidamente, começaram a estimular o soccer para as mulheres que, como sabemos, é o nosso football association. Escolas, clubes etc assumiram a prática imediatamente. Popularizou-se como num rastilho de pólvora. Deu no que deu, todos sabemos. No Brasil, ao contrário, a força do futebol de homens ocupou quase todo o espaço das práticas esportivas, impedindo o desenvolvimento e a “normalização” do futebol de mulheres. Deixou algum espaço para o vôlei, o basquete e, bem mais recentemente, para o handbol.

Nesses mesmos quarenta anos em que se popularizou o futebol de mulheres nos Estados Unidos, no Brasil, algumas guerreiras foram abrindo caminhos com extrema dificuldade. A demanda reprimida é extraordinária: atualmente, comparecem às peneiras dos clubes da primeira divisão cerca de 500 meninas sonhando em se profissionalizar.

Este, afinal, é o começo de uma normalização do futebol de mulheres no Brasil apesar das inúmeras dificuldades de que ainda se cerca? É possível. Esta VIII Copa do Mundo trouxe alguns aspectos auspiciosos: a maior rede de TV aberta do país transmitiu, ao vivo, pela primeira vez, os jogos da seleção brasileira, com uma audiência extraordinária. Uma editora comercial lançou o álbum de figurinhas oficial da FIFA (Women’s World Cup France 2019), pelo que pude saber, com grande aceitação. E, principalmente, a maioria das análises do desempenho do selecionado que acompanhei, fugiram aos estereótipos (bonita, feia, homossexual etc), fazendo análises técnicas dos jogos.

Cabe ainda chamar a atenção para a proliferação de excelentes trabalhos acadêmicos sobre o futebol de mulheres.

Creio que há muito chão ainda pela frente mas o caminho parece um pouco mais desimpedido. Igualar-se ao futebol masculino? Difícil prever. Entretanto, não hesito em afirmar que, finalmente, após a VIII Copa do Mundo, o futebol de mulheres no Brasil começa a ser considerado uma prática esportiva normal. O que, neste caso, não é pouco.

Referências

Bourdieu, P. (1990). Programa para uma sociologia dos esportes. Coisas Ditas. São Paulo: Brasiliense, p. 208.

Anuncio publicitario

Deja una respuesta

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Salir /  Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Salir /  Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Salir /  Cambiar )

Conectando a %s